No século XIX, Pelotas passou por um processo de modernização que incluiu a implantação do primeiro sistema público de abastecimento de água. Em 1871, foi firmado um decreto imperial que autorizou a implantação da Companhia Hydráulica Pelotense em Pelotas, sob a direção de Hygino Corrêa Durão, responsável por distribuir água à população — e os chafarizes eram peças chave desse sistema. Eles não eram apenas decorativos mas funcionavam como pontos públicos de abastecimento, com torneiras para venda de água durante o dia e à noite, iluminados por candelabros. A água era vendida a 20 réis (equivaleriam hoje a algo entre R$ 2,00 a R$ 5,00 o barril) de 25 litros, e os chafarizes eram protegidos por grades de ferro para evitar vandalismo e controlar o acesso.
Obs: A primeira cláusula do contrato da Companhia previa a colocação de um reservatório de água no centro da cidade e assim foi colocada a caixa d'água na Praça Piratinino de Almeida comprada na cidade de Paisley, Escócia, no ano de 1875.
Implantação e
distribuição
Quatro chafarizes foram planejados, com modelos importados da Fundições Durenne de Paris, referência europeia em arte fundida. Eles foram instalados entre 1873 e 1876 em locais estratégicos da cidade:
- Praça D. Pedro II (hoje Praça Coronel Pedro Osório) – O primeiro e mais emblemático chafariz, chamado Fonte das Nereidas, onde as figuras femininas no topo representam a ciência, a arte, a poesia e a indústria.
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| Desenho da Durenne Fontaine de 1862 instalada em Pelotas no ano de 1873. |
Fontaine des Néréides (1873), na cidade de Pelotas. E o que lá se encontra é nada mais nada menos que um exemplar magnífico, fruto do modelo “original” apresentado pelas fundições Durenne, na Exposição Universal de Londres, em 1860, e desde 1872 em Edimburgo, Escócia. Le modele de Pelotas – diminuée – a été présentée pour la première fois à l’Exposition universelle 1867 (Paris). O que muito orgulha aos brasileiros é o fato de o modelo de Pelotas ser o único que existe “completo”, tal qual apresentado em Londres: uma fonte monumental ornamentada com quatro nereidas a cavalo em volta de todo o conjunto, as quais dão nome à fonte.
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| Localizada hoje na Praça Coronel Pedro Osório, foi importada em 1873 e montada em 1874, substituindo o pelourinho da praça. |
- Praça da Igreja Matriz atual Praça José Bonifácio – hoje desaparecido, com destino desconhecido.
- Praça Domingos Rodrigues – depois transferido para o Calçadão da Andrade Neves.
O chafariz das "Três Meninas", embora alguns dizem se tratar de duas meninas e um menino, foi instalado em 1874, originalmente na Praça Domingos Rodrigues, na zona portuária. Apenas em dezembro de 1981 foi transferido para o Calçadão de Pelotas, no cruzamento entre as ruas Andrade Neves e Sete de Setembro.
- Rua São Miguel (Quinze de Novembro) esquina Santo Ignácio (Gomes Carneiro) – posteriormente movido para a Praça Cypriano Barcellos.
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| Desativado e esquecido, tornando-se depósito de lixo em 1910, foi transferido para a Praça Floriano Peixoto (atual Cypriano Barcellos). |
“Aos dezesseis dias do mês de março de 1876, “finalmente” teve lugar a sessão extraordinária da Câmara Municipal, sob a presidência do sr. Urbano Martins Garcia, na qual foram lidos alguns ofícios enviados à Câmara, dentre esses o da Companhia Hidráulica Pelotense, “cientificando, que não sendo possível a colocação do 4º chafariz na praça da Constituição, além da ponte do Santa Bárbara [quase em frente ao atual prédio da Receita Federal], ela resolveu, para terminar delongas, comprar um terreno na rua S. Miguel [15 de Novembro], fazendo esquina, ao Sul, pela rua Sto. Inácio [Gomes Carneiro], onde poderá ser colocado o 4º chafariz, caso o ponto indicado mereça a aprovação da Ilma. Câmara Municipal”.
Valor histórico e
cultural
Esses chafarizes representam muito mais do que infraestrutura: São símbolos da urbanização, da influência europeia e do investimento público em qualidade de vida. A presença de guarda responsável, iluminação noturna e localização central mostra como eram pensados para servir à população de forma contínua e organizada. Além disso, eles refletem o desejo da cidade de se alinhar às grandes capitais da época, tanto em funcionalidade quanto em estética — mesmo que essa estética tenha sido secundária à sua função original de abastecimento.





























