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| https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=094170_02&id=546306554987&pagfis=31555 |
Na integra com a escrita da época
Inauguração da Hydraulica Pelotense
A cidade de Pelotas e sua população estremecem de jubilo e alegria, dão parabens á sua felicidade,e, reconhecidas, agradecem o beneficio immenso e inestimavel que de ora avante gosarão: A Hydraulica Pelotense.
Esse melhoramento, ha tanto desejado a bem do povo, essa necessidade palpitante e utilissima, ha tanto reclamada em prole da hygiene e salubridade publica é hoje um facto, uma realidade, embora os utopistas descressem e lhe vaticinassem máo fim.
A sciencia e arte, o trabalho e o homem uniram-se, esforçaram-se e venceram; assim devia, acontecer, porquanto a intelligencia não conhece barreira que lhe possa embargar o passo.
A força de vontade, a persistencia tenaz, o trabalho constante e assiduo junto aos esforços mais arduos, tudo foi empregado por dous homens, os Srs. Hygino Corrêa Durão, empreiteiro, e João Frick, socio, para vencerem as difficuldades e obices que se antoalhavam ante o proseguimento de tão grandiosa utilidade.
A gratidão, esse sentimento nato no coração do homem, não conhece expressões; o pensamento não lhe empresta phrases, que a possam testemunhar devida e solemnemente, tal a grandeza e magnitude de seu reconhecimento.
A inauguração da Hydraulica Pelotense realisou-se ante-hontem, conforme noticiámos.
Bem cedo, já se via o bulicio dos carros que conduziam as pessoas para a caixa d'agua, onde devia começar a inauguração. Para cima de trezentas e tantas pessoas, entre cavalheiros e senhoras, alli se viu.
A alegria transluzia em todos os rostos, o prazer entumecia os corações e a admiração manifestava-se sorprendida diante de tão grande obra, diante da sciencia e da arte, que, fazendo parar em seu correr o arroio MOREIRA, fazia-o vir até ás ruas de nossa florescente cidade, para nos abastecer de excellente agua, principal elemento da vida e da saude.
Apresentar um juizo sobre a obra é desnecessario, porque seria repetir aquillo que por differentes vezes hemos dito; limitamo-nos a accrescentar que ella é grandiosa e soberba, quer pela solidez, quer pela belleza.
A's 9 horas da manhã deu-se principio à inauguração pelo levantamento da porta de ferro que impede ás aguas do arroio a continuação de seu curso, isto no troar de centenares de foguetes.
As aguas, achando livre o seu passo, corriam com ligeireza espantosa, como se dissessem: Temos de novo a nossa liberdade; porém, para logo foi descida a porta de ferro, e então conheceram que continuavam a ser prisioneiras e sujeitas á vontade do homem e ao poder da sciencia.
Em seguida abriram-se as valvulas que poem em communicação o arroio com os tanques, que, para logo, entrando a agua em grandes jorros, encheram-se. O Sr. presidente da camara, que, com seus collegas, alli compareceu como representante do povo, aberta a ultima valvula, a que dirige a agua para a cidade, levantou os seguintes vivas: A' S. M. o Imperador, ao progresso pelotense, ao incansavel empreiteiro o Sr. Hygino Corrêa Durão, que foram calorosamente correspondidos pelas pessoas presentes.
Após esses vivas, o Sr. Custodio Echague levantou um á directoria da companhia Hydraulica, que, como os outros, foi applaudido.
Estavam ahi terminados os trabalhos, em vista do que voltou-se, tendo que parar no Benjamim, onde o Sr. Durão offereceu aos seus convidados um profuso e esplendido copo d'agua.
Abriu a serie de brindes o Sr. Dr. Alexandre Mendonça, que, pedindo desculpa ao bello sexo se preteria-o no brinde que lhes devia, attenta á consideração e respeito a que tem jus, era porque, enthusiasia pelo melhoramento cuja inauguração se effectuava, julgava dever reverter essa honra ao homem que tanto se afadigara e esforçara, ao Sr. Hygino Corrêa Durão, e assim, abundando em justas considerações, saudou esse honrado e incansavel empreiteiro.
O proprietario e redactor desta folha brindou ao Sr. João Frick, como socio e companheiro de trabalhos, fadigas e lutas do Sr. Durão.
O Dr. Joaquim J. de Mendonça, em um eloquente e bonito discurso, no qual patentêou as immensas vantagens que vinha-se a auferir com tão importante melhoramento, saudou so mesmo Sr. Durão, como honesto, prestimoso e digno empreiteiro.
O Sr. Durão agradecen o brinde, querendo fazer reverter tudo quanto á voz do illustrado Dr. Mendonça patenteara ao Sr. conselheiro Pinto Lima, que fizera com elle o contrato, e levantou então, um brinde ao digno ex-administrador da provincia.
Seguiram-se outros muitos brindes que nos levariam longe, se quizessemos enumeral-os; assim, destacaremos ainda, como mais salientes, os seguintes:
Do Dr. Francisco Azevedo Souza ao capital, representado nas pessoas dos Srs. barão da Graça, barão de Butuhy e tenente-coronel Domingos S. de Paiva, a quem muito se devia pelo concurso valioso que haviam prestado com suas fortunas.
Do Sr. barão da Graça, agradecendo em seu nome e no de seus companheiros a pedindo um brinde 'a todos os accionistas mesmo aquelles de uma só acção.
Do Dr. Joaquim Mendonça ao bello sexo, ornamento de nossa sociedade, prototypo de virtudes, graças e bellezas, como esposa, mãe e filha.
Do Sr. Machado Filho ao Sr. Durão, que se mostrava lutador incansavel nos certamens do trabalho.
Trocaram-se ainda muitos brindes, sendo saudados os Srs. João Rezende, Custodio Echague, Primorose, Smith, Hallway, as familias presentes, etc..
Terminado o almoço, regressou-se à cidade, seguindo toda a comitiva até o porto da cidade onde o Revm. Dr. Canabarro benzeu a agua, depois do que abriu-se a valvula, e o chafariz, collocado na praça S. Domingos, começou a jorrar agua.
Subiu ao ar uma girandola de foguetes e o povo alli reunido, alegre e satisfeito, demonstrou seu enthusiasmo pelo progresso desta terra.
O chafariz estava todo enfeitado de flamulas e verdes festões, devido aos esforços dos Srs. Heleodoro Filho, Manoel Braga, visconde de Piratino e José Barreira.
O mesmo que se fez no chafariz à praça S. Domingos, praticou-se nos que estão collocados nas praças da Igreja e Pedro II. Neste ultimo, terminada a cerimonia religiosa e aberta a valvula, o Sr. major Azevedo Machado Filho, muito digno secretario da companhia Hydraulica, leu a seguinte manifestação:
«Illm. Sr. — Os abaixo assignados, que neste momento teem a felicidade de ser os interpretes dos sentimentos da população desta cidade, veem, possuidos de vivo jubilo, dar publico testemunho do reconhecimento que tributam a V. S. como a um dos mais esforçados lidadores da Hydraulica Pelotense, melhoramento benefico, progresso util, obra de arte, que, orgulhosos e contentes, escrevemos hoje em uma das mais bellas paginas do livro dos nossos adiantamentos.
« Se este bronze, que a arte modelou para nós, se o ferro que a industria occultou no seio desta terra, se a cantaria, cortada e polida pela vontade e pelo trabalho, se a agua que a sciencia, esse moderno Moysés, fez jorrar por nós, não bastarem para eternisar as fadigas, intelligencia e honradez de V. S., a sympathia que cerca o vosso nome, a admiração e gratidão que vos consagramos, jamais serão apagadas pela esponja do esquecimento.
« Incapazes de querermos contar os relevantes serviços de V. S. na pequenez do nosso mimo, depositamol-o em vossas mãos apenas como symbolo da nossa profunda satisfação, certos de que a opulencia dos sentimentos d'alma disfarçará a pobreza do offerecimento.
« Aceite, pois, V. S. o coração agradecido da cidade de Pelotas » (Seguem-se as assignaturas.)
Finda a leitura foi entregue ao Sr. Durão uma rica baixela de prata, que era o mimo feito em nome da população pelotense.
O Sr. Hygino Corrêa Durão, com a voz tremula pela gratidão, disse algumas palavras repassadas de sentimento e prazer, e, como prova de reconhecimento á população de Pelotas, entregou carta de liberdade a tres escravos seus, sendo Serafim, de 30 annos, Domingos, de 28, e Fortunato, de 20.
Assim terminou a inauguração Hydraulica Pelotense.
Tres victimas das algemas do captiveiro viram quebrar-se esses grilhões e raiar o sol de sua liberdade, graças no bem formado coração do Sr. Durão.*
Esse acto grandioso tem o verdadeiro elogio em si proprio; todo o encomio seria pouco.
O Sr. Hygino Corrêa Durão terá seu nome sempre gravado no coração dos pelotenses, e elle perdurará tão eternamente, como o beneficio importante que começamos a gosar, devido ao seu zelo, incansabilidade, esforços e incessantes trabalhos.
Aceite, pois, o Sr. Durão os votos de uma população que o bemdiz e venera, assim como as homenagens do mais humilde, mas esforçado e justiceiro orgão da imprensa.
* Abolicionista, o empresário Durão comemorou a inauguração em 1874 da Hidráulica Pelotense, libertando três escravos na presença das autoridades representativas do conservadorismo e do regressismo, em uma monarquia que não achava caminho para realizar a dignidade do homem.
Fonte sobre a abolição: https://confrariadospoetasdejaguarao.blogspot.com/2014/08/hygino-correa-durao-empresario-do.html
Fonte da noticia no Diario do Rio de Janeiro: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=094170_02&pagfis=31555
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